Botucatu, terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Colunista Quico Cuter Jornalista, Autor, Escritor, Historiador e Poeta
06/07/2019

Definitivamente, João Gilberto não era desse planeta



Foto - Divulgação

Dizer o quê de João Gilberto? Como escrever sobre um cara que não é desse planeta? Do homem que reinventou o violão?. Que gerou a bossa nova, na harmonia de Roberto Menescal, na musicalidade de Tom Jobim e nas frases de amor de Vinicius de Moraes? Morre o gênio. Morre a lenda.  Morre o próprio violão. Morre o perfeccionista. Morre o excêntrico. Morre o revolucionário da música. Aquela personalidade forte, marcante, deixa de existir como pessoa física. Vai embora da terra o pai da bossa nova aos 88 anos, depois de ter a vida conturbada nos últimos10 anos por problemas famililares e financeiros, recluso num apartamento, no Lebron, zona sul do Rio de Janeiro.

João Gilberto sempre foi implacável e exigente consigo mesmo. E com os outros, idem. Seu ouvido musical enxergava os mais imperceptiveis erros. E não admitia erros. Exigia demais, porque sabia demais. A levada original de sua  harmonia entrava num mundo musical onde ninguém nunca esteve. Com a mão deslizava acordes dissonantes em sincronismo com a percussão, encaixando sua voz baixa com notas limpas, caudalosas. Perfeitas. Quase um sussurro. Falava cantando ou cantando falava, encurtando ou aumentando palavras de um verso, sem perder a linha melódica da canção. Só ele era capaz disso. Nunca ninguém conseguirá fazer nada igual. Nem parecido.

Foi em julho de 1958 que João Gilberto gravou a música “Chega de Saudade”. Uma obra prima de Tom e Vinicius. A partir daí a música nunca mais foi a mesma com aquela batida do violão e o jeito diferente de cantar. João Gilberto criou um gênero e com ele a “Garota de Ipanema”  mais uma obra prima de Tom e Vinicius, ganhou o mundo. João Gilberto ganhou o mundo. O mundo ganhou João Gilberto.

Se tornou o maior intérprete da música brasileira de todos os tempos. Influenciou gerações de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores. Seus shows eram verdadeiros acontecimentos. Gostava de cantar sozinho, de terno e gravata, num banquinho e com um violão. Fazia daquele instrumento, uma orquestra.

Definitivamente, João Gilberto não era desse planeta. Esteve por aqui para deixar seu legado. Cumprir uma missão. Agora sai de cena para se encontrar com velhos companheiros numa outra dimensão e quem sabe criar mais uma maneira de fazer música. Inventar um novo jeito de cantar. Mostrar uma nova batida sincopada de violão. Ser pai, talvez, de uma nova bossa.  Não vai descansar, eternamente,  em paz.

 

 










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